O Recife suspirou a guerra até os últimos dias do conflito. Quando a vitória dos Aliados já estava praticamente consumada, a primeira-dama americana, Eleanor Roosevelt, visitou a capital pernambucana, onde atuavam 28 mil homens da Marinha dos Estados Unidos. Em sua discreta passagem de um dia pela cidade, ela foi pivô de uma história curiosa, que o Jornal do Commercio conta na quarta e última reportagem da série sobre os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, lembrados ontem.Wagner Sarmentowsarmento@jc.com.br
Nunca uma visita foi tão indesejada. O fuzileiro americano Evan Lindner poderia ter todos os motivos para ficar feliz quando, no dia 17 de março de 1944, a primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, passou pelo Recife para conhecer as instalações da Quarta Frota e o andamento da guerra no Atlântico Sul. Mas a visita da esposa do presidente Franklin Delano Roosevelt, que para todos os outros marinheiros representou um presente, para ele foi um duro castigo da pátria. Internado com tifo em condições impróprias num ambulatório improvisado no prédio do antigo Cassino Americano, no Pina, Zona Sul da capital, Lindner foi aprisionado em uma cela durante a passagem de Eleanor pelo local. Passou aquela noite como bicho, num cubículo, entre a vida e a morte, sem ter cometido crime algum. Só porque não queriam que a primeira-dama visse que um paciente com uma doença tão grave para a época, e facilmente transmissível, não estava em isolamento adequado.
O tempo não traiu as vívidas lembranças de Evan Lindner, 82 anos, que mora em Nova Jérsei e tem uma cabana na floresta em Massachusetts. “Eu fiquei doente quando estava no Recife”, recorda. O marinheiro foi tratado no Hospital Naval Praia do Pina, uma das quatro unidades de saúde mantidas na cidade pelos americanos no conflito. O prédio havia sido arrendado pelos Estados Unidos em 11 de dezembro de 1941, quatro dias depois do ataque japonês à base de Pearl Harbor. Atualmente, funciona um restaurante no local.
Os outros hospitais para americanos eram o 200º Hospital Estação, atual Hospital da Aeronáutica, e o Hospital São João de Escócia, no bairro do Sancho, além da clínica instalada na Base Aérea do Ibura.
A força do relato de Lindner dá a dimensão do quanto ele sofreu quando contraiu tifo. “Eu suava tanto que uma vez o suor desceu pelo colchão e fez uma poça debaixo da cama”, contou, em entrevista por e-mail.
O tifo que acometeu Evan Lindner coincidiu, para seu infortúnio, com a visita de Eleanor Roosevelt à capital pernambucana, após três dias em Belém e Natal. A primeira-dama queria conhecer as dependências do hospital e ofertar palavras de consolo aos enfermos.
“Mas não queriam que ela soubesse que havia um caso de tifo no hospital e que ele não estava isolado”, lamenta o militar. Lindner era tratado na enfermaria, misturado a outros doentes, separado apenas por uma inútil cerca de lençóis.
Diante da situação, os militares da Quarta Frota não tiveram dúvida: jogaram o paciente numa cela, em condições piores àquelas que ele já ostentava. “Foi a única vez na minha vida que eu fiquei preso, e sem ter feito nada”, afirma. Eleanor voltou para os EUA no dia seguinte sem conhecer a história de Lindner. O fuzileiro, no entanto, sobreviveu ao tifo e ao destrato para contar a história escondida num porão da guerra.
GEMADAS
Mas nem só de lembranças ruins viveu Evan Lindner no Recife, mesmo enquanto doente. Passagens divertidas navegam na memória do veterano.
O ex-combatente, para recobrar as forças e se curar do tifo, era obrigado a tomar três gemadas por dia, cada uma com 18 ovos. “Fiquei muito fraco, debilitado”, observa o americano.
O alimento era proveniente da Fazenda Estrela, entre Tejipió e a Várzea, arrendada pelo comandante da Quarta Frota Americana, almirante Jonas Ingram, que cultivava no local frutas e verduras típicas dos Estados Unidos, para matar um pouco da saudade que a guerra e a distância suscitavam.
Certo dia, o almirante Ingram apareceu no Hospital Naval Praia do Pina com ares de furioso e gritou, olhando para Lindner: “Quero saber quem está comendo meus ovos!”, teria dito, conforme o comandante de aviação civil pernambucano Ozires Moraes, estudioso da Segunda Guerra. O fuzileiro silenciou. Para alívio de Lindner, que naquele momento não sabia se suava de tifo ou de medo, seu comandante estava apenas brincando.