Blog de Jamildo 1

coluna de acessibilidade

Sonho impossível?

POSTADO ÀS 12:25 EM 17 DE Setembro DE 2012

(Foto: reprodução)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão...
(Trecho da Música Sonho Impossível de Chico Buarque)

Última semana, assisti com entusiasmo a final das Paralimpíadas de Londres, não apenas pelo esporte em si, mas especialmente pelo feito histórico de grandes homens, pouco reconhecidos, pouco festejados, mas com uma força e motivação tamanhas que nos fazem repensar a nossa vida, os nossos valores e a nossa fé na humanidade.

Digo isso, porque outro dia escutei de um amigo que, muitas vezes, ele tinha vergonha de pertencer à espécie humana por presenciar atitudes tão vis e ao mesmo tempo tão corriqueiras de indivíduos bem formados e que deveriam ser o exemplo das novas gerações. Decerto que ele tem razão no que diz ao observar: as ideologias superficiais, a corrupção de cara lavada, as bandeiras sem fundamento, a violência e outras mazelas e mal feitos que transformaram o país num SANATÓRIO GERAL de pensamentos, valores, ideologia, má política, maus homens...

Mas, ao observar brasileiros que com tão pouco estímulo motivacional, pouco reconhecimento e pouco investimento conseguiram o tão grande feito da sétima colocação no ranking mundial dos Jogos Paralímpicos nos faz ter esperança de que nem tudo está perdido.

Isto posto, não há melhor exemplo para eu contrapor aos argumentos do meu amigo do que essa vitória do espírito humano e dizer com tranquilidade de espírito que esse feito me faz ter orgulho de pertencer a espécie humana.

No mais, agradeço cada vez que vejo essa força divina nos homens, pois confesso que se decepcionar com as almas dos nossos pares é algo bem difícil de superar...

Conseguimos na Paralimpíadas de Londres 43 medalhas, sendo 21 de ouro, 14 de prata e oito de bronze, sendo a melhor colocação do Brasil nessa competição e 2 posições melhor do que a edição de 2008.

Para esse feito houve investimentos de R$165 milhões de reais advindas do governo federal, por meio do Ministério dos Esportes, da Caixa Econômica Federal, do grupo Infraero, da Prefeitura do Rio de Janeiro e do governo do Estado de São Paulo, o que é ainda um investimento muito baixo se comparado com o investimento do Brasil com os atletas que participaram das Olimpíadas de Londres, que foi de 2,1 Bilhões de reais para a conquista de 17 medalhas e um desempenho que ocupou a 22a colocação no quadro de medalhas oficial. Ou seja, o investimento nos nossos atletas paralímpicos foi 7,8% do investimento com os nossos atletas “normais”.

Considerando a falta de investimento no esporte paralímpico, a dificuldade de circulação pelas pessoas com deficiência nas cidades devido à falta de acessibilidade, as barreiras arquitetônicas e atitudinais, a falta de acessibilidade em quadras e locais de treinamento de esportes, a falta de transporte adaptado, o preconceito, nossos para-atletas são os verdadeiros heróis nacionais.

Aliás, li na Coluna de Afonsinho na Revista Carta Capital o seguinte relato sobre os Jogos Paralímpicos: “as Paralimpíadas são um acontecimento da humanidade. Manifestação que afirma o destino humano tão desacreditado dos nossos dias. De pessoas com inúmeras limitações, comprovações a cada instante da capacidade de seguir adiante com entusiasmo avassalador. Com a força da sua essência humana, acender a chama da Sagrada Esperança nas multidões de desacorçoados por séculos de derrotas gerações afora.”.

Ademais, poder partilhar as cenas de motivação e entusiasmo de um lindo jovem amputado das duas pernas conseguir obter o recorde correndo, ou melhor, voando sobre Londres nos traz um arrufo tão grande de esperança que chega a chacoalhar o espírito humano e essa conquista é maior do que qualquer medalha de ouro, é a vitória da força interior contra as adversidades externas e eu posso dizer , com propriedade, que o mundo, o Brasil e especialmente, nossas cidades são um mar de adversidades constantes.

Lembro-me do meu retorno a Recife, após 8 meses de internação hospitalar em São Paulo, e do meu retorno ao tratamento de fisioterapia que incluía 2 sessões semanais de exercícios musculares dos membros superiores que eu deveria fazer em qualquer academia com a utilização de equipamentos para treinamento desse grupo muscular. O que eu não imaginava é que seria difícil encontrar situações de acessibilidades adequadas nas academias recifenses, chegando ao extremo diálogo entre minha fisioterapeuta e o instrutor de uma academia da Jaqueira, que simplesmente disse para minha fisioterapeuta que eu deveria procurar outra academia, já que pessoas com deficiência não era o “público alvo” daquela academia.

Fiquei perplexa por esse setor esportivo ignorar que temos 24% de pessoas com deficiência no Brasil, 28% de pessoas com deficiência em Pernambuco e 38% de pessoas com deficiência em Recife, dessa forma, seria, no mínimo, um imenso contrassenso para esse grupo de negócios “esquecer” tão grande contingente da população, sem falar do extremo preconceito e exclusão que representa essa ausência de acessibilidade.

Trocando em miúdos, o que continua a me preocupar é, mais uma vez, como esses locais conseguem tirar e manter suas licenças de funcionamento sem apresentar condições de acessibilidade, contrariando o decreto Federal 5.296 de 2004.

Com efeito, felizmente, surgem novos locais na cidade, como o Clube 17, que possui além da acessibilidade requerida, áreas e equipamentos voltados para deficientes físicos, como a bicicleta ergométrica para trabalho aeróbico e muscular que utiliza as mãos para gerar o movimento. Nessa academia-clube vou poder, finalmente, exercitar-me de maneira adequada na única academia totalmente adaptada da cidade. Aliás, todas devem seguir esse exemplo e adaptar suas instalações, pois todos têm o direito a utilizar esses espaços de USO COLETIVO e a não adequação de suas condições de acessibilidade os torna infratores de lei federal.

Contabilizando a dificuldade que tive para utilizar uma academia para simplesmente fazer exercícios, sem ser atleta, não me admirou o fato de termos um time de para-atletas pernambucanos de basquete que representam dignamente o estado em torneios no Brasil, através da ADEFEPE (Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Pernambuco) e que não possui nenhum patrocínio. Eles tentam manter o treinamento a duras penas e sem recursos, sem contar com o alto desgaste gerado nos pneus das cadeiras de rodas, a falta de material para treinamento, a falta de  uniformes, a falta de recursos para despesas com viagens, etc.

Por fim, como diria Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto”... Pois é, continuo cantando, na verdade, vivo cantando, e entendo que a sabedoria popular tem sempre razão, pois as dores chegam e são rapidamente afugentadas pelo meu canto onipresente, resta apenas a esperança e a fé, fé, sobretudo, nos homens, nesses homens que como eu erram, mas sempre encontram uma força interior que os encaminha para o caminho certo, o caminho da VIDA.

Enfim, volto as palavras do velho Chico para encerrar esse artigo:

...É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.
(Trecho da Música Sonho Impossível de Chico Buarque)

(Foto: reprodução)

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8 Comentários | comente | cadastre-se | recupere sua senha

Por - mayara | Setembro 23, 2012

Acho que já foi dito, mas vou falar outra vez: Eles não são deficientes, são, na verdade, eficientes. Ouvi isso certa vez de um senhor que não enxergava e, com isso, fui ajudá-lo a atravessar a rua. Ele perguntou meu nome e se apresentou, respondi e disse que ele já parecia estar acostumado com a situação das calçadas. Daí perguntei há quanto tempo ele era deficiente visual... a resposta dele foi essa: "Não sou deficiente, eu sou eficiente!" depois pegou em todo o meu braço e o descreveu em tantos detalhes que eu, que enxergo, nem sabia que existiam. Pedi desculpas e ele, simpaticamente, me deu seu cartão, dizendo que era massoterapeuta e que o que seus olhos não viam, as mãos dele sentiam. Encontramos atletas vitoriosos todos os dias, e me dá muito orgulho toda essa persistência da espécie humana! Parabéns, Manuela.

Por - José Targino | Setembro 20, 2012

Prezada Manuela, Li seu artigo Sonho Impossível? Novamente, cumprimento-lhe pelo categorizado escrito. Do mesmo se extrai dois aspectos importantes, a meu ver, que são: 1) a inadequação dos espaços em nossas cidades aos portadores de necessidades especiais, o que revela uma postura até certo ponto discriminatória e, 2) o poder "ilimitado" do ser humano de superar limites, mesmo nas mais flagrantes adversidad

Por - Manuela Dantas | Setembro 18, 2012

Amigos, A Associação dos Deficientes Físicos do estado de Pernambuco necessita de patrocinio para seu time de basquete, um projeto importante com para-atletas que representam nosso estado em todo o Brasil. Qualquer empresa que se interesse pelo tema favor me ligar 81-99796474 ou para o presidente da associação Seu Manuel 81-3443499

Por - Elias | Setembro 17, 2012

Manu, Este tipo de competição deveria ter medalhas ate para o ultimo colocado. A superacao destes atletas é um exemplo de que o povo brasileiro é lutador! Varias barreiras em recife foram ultrapassadas. Sugiro que voce faça um balanço das conquistas dessa sua olimpiada de um ano. Tenho certeza que temos duas realidades, AM e PM (antes e pos Manuela), mas a quem colocaria as medalhas de ouro, prata e bronze? Acho que os apoiadores das ideias implantadas merecem reconhecim

Por - Gerardo Dantas | Setembro 17, 2012

Filha, Excelente! Sem palavras. Juntando as suas idéias com' as de Chico e Thiago de Mello fazem um trio perfeito. Bjs., Gerardo

Por - João | Setembro 17, 2012

Manuela, Realmente, o sonho nunca é impossível se existe uma vontade férrea e esses atletas demostraram que tem de sobra.

Por - Beta | Setembro 17, 2012

Manu, Que lindo artigo! Essa motivação dos para-atletas realmente nos emociona e nos faz querer nos dedicar a nossa vida com mais ânimo.

Por - Manuela Dantas | Setembro 17, 2012

Amigos, Surpreende-me presenciar tal ânimo, entusiasmo e resultado dos nossos para-atletas, apesar das adversidades. limitações, recursos escassos. Isso só uma força divina explica, a natureza do homem de se redescobrir e continuar lutando além do possível. Por isso, parabéns para-atletas não só pelo resultado nos Jogos Paralímpicos, mas principalmente pelo exemplo para a humanidade, pelo arroufo de esperança que nos proporciona e pela chacoalhada no espírito humano. Bjs., Manuela
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