Blog de Jamildo 1

Coluna de acessibilidade

Quando o Carnaval Passar

POSTADO ÀS 08:13 EM 27 DE Fevereiro DE 2012

Por Manuela Dantas 

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...
(Trecho da Música Quando o Carnaval Chegar de Chico Buarque)

Acabou nosso carnaval... Mas como diria Vinicius de Moraes, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade... É verdade, o meu carnaval acabou na segunda-feira, já que na terça-feira estava na ativa, trabalhando e cantarolando com uma flor no cabelo... Mas, trabalhando alegre, já que me senti revigorada pela alegria do carnaval e uma dose extra de ânimo super bem-vinda entrou no meu ambiente e se Deus quiser, como diria mamãe, vou cuidar muito bem dela para o caso dela querer ir embora, sempre se sentir a vontade para voltar logo.

Pois é, acabou nosso carnaval... E sem voltar a antigas mazelas, lembrando de Drummond quando escreveu “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.”, retomo as minhas rotinas diárias... Trabalho, fisioterapia, novela, jornal, leitura... Vida normal e vida real, mas confesso que minha energia está em alta, para o trabalho, para as fisioterapias, para tudo...

Gostaria de contar um pouco do meu carnaval, que, confesso, achava que ia acabar passando em casa por não acreditar que haveria acessibilidade no mesmo, o que, felizmente, eu estava bem enganada...

No sábado fui para o Galo da Madrugada, para o camarote da acessibilidade, o qual tinha rampa, banheiro químico adaptado e maior do que os usuais, audiodescrição, e tradutor de libras, a língua brasileira de sinais. A banda que animava o camarote era composta por integrantes cegos e o melhor, havia vários deficientes felizes, com os quais pude conversar, conhecer e perceber a sua empolgação por poderem estar no carnaval com a estrutura necessária e segurança.

Lembro de ter visto do camarote um cadeirante seguindo um trio elétrico na rua, vi também outro cadeirante fantasiado de múmia conduzido por uma moça, vi, impressionada, um passista de frevo dançando alegremente com uma única perna, vi vários grupos de cegos passando em frente à Praça do Carmo, e no camarote da acessibilidade vi o show da diversidade.

Confesso que nunca me senti tão bem por estar em um ambiente de alegria tão sincera, de sorrisos tão espontâneos, de olhos tão brilhantes, de inclusão tão aberta e de felicidade tão esperada, tão desejada e ao mesmo tempo tão simples...

Vi sorrisos, sorrisos por tanto tempo abafados pela falta... Falta de cidadania, falta de inclusão, falta de direitos, falta de assistência, falta de acessibilidade, falta de compreensão, falta de amor...
Há algum tempo atrás um amigo meu, disse-me algo que não entendi naquele momento, ele me disse que eu era um exemplo por não estar revoltada com o acidente que me deixou paraplégica, nem depressiva e continuar a viver alegremente, apenas o respondi que eu não enxergava outra opção, pois eu precisava continuar a viver e não queria apenas passar pela vida... Afinal, por que continuar sofrendo se eu posso continuar vivendo sendo feliz, apesar da minha atual condição. De certo que existem barreiras e limitações, mas a felicidade, como a vida sempre encontra um jeito de voltar a surgir.

Respondendo hoje ao meu amigo, depois do que vi no carnaval, diria que todas aquelas pessoas deficientes que estavam no carnaval eram um grande e verdadeiro exemplo, pois a felicidade que eles transpareciam não era alvo de um momento, ou tinha a frivolidade de um novo adereço, ou de uma nova conquista amorosa, era enraizada na paz de espírito proporcionada pela missão cumprida de ajudar muitos outros deficientes a encontrar seu lugar na sociedade e de serem precursores na promoção da acessibilidade no carnaval, na cultura, no lazer, na cidade, no estado e quiçá no Brasil.

Afinal, quem é verdadeiramente feliz sem ter uma missão justa no coração?

Há poucos dias atrás eu li uma crônica muito bem escrita da jornalista Ana Paula Padrão sobre a felicidade e o carnaval, na mesma a autora mencionava que ninguém devia forçar uma situação de felicidade e de alegria para adentrar no carnaval numa mesma sintonia que os outros. Concordo com a jornalista, mas adiciono ao seu texto apenas o fato, que é realidade para muitos pernambucanos, que temos o carnaval no sangue, planejamos o carnaval o ano todo e ficar longe dele dá uma saudade danada, além de nos deixar tristes, como aconteceu comigo em alguns anos que passei distante e com um incontrolável nó na garganta.

Pois é Ana, o carnaval para muitos não é uma felicidade pontual, mas estimula um ano novo de atividades, até termos o novo banho de boas energias da chegada do novo carnaval.

Contabilizando o que vivi no carnaval também em Bezerros e Olinda, tenho uma enorme gama de bons relatos a fazer, mas por enquanto vou apenas deixar no imaginário de vocês... O que apenas digo é que sinto uma felicidade e paz até hoje por ver a beleza da igualdade, de uma forma que nunca tinha visto.

Mas, nossa missão pela conquista da acessibilidade em Recife e Pernambuco ainda tem um longo caminho pela frente... Nossa luta continua pela inclusão nas artes, nas ruas, calçadas, edifícios públicos e de uso público, acessibilidade ao mercado de trabalho, a saúde, centros de reabilitação, a vida cidadã e digna...

Refletindo sobre todas aquelas pessoas que estavam comigo naquele mesmo grito e buscando aquela alegria tão adiada e ao mesmo tempo tão esperada, é que todos somos sobreviventes.... Sobreviventes de acidentes, sobreviventes de fatalidades, sobreviventes da violência, sobreviventes de uma vida repleta de lutas, de dificuldades, de barreiras visíveis e as invisíveis (que são as piores)...

Aprendemos, muitas vezes a duras penas, a sermos fortes e nos mantermos assim... Aprendemos a olhar a vida de frente e não baixar os olhos diante dos obstáculos... Sabemos como ninguém, que a vida é um milagre, e que não vale a pena desperdiçá-la... Temos em comum o otimismo, um otimismo inabalável, uma luz interior que sem sombra de dúvida nos motiva e nos impulsiona a continuar lutando e o fundamental... Acreditar nos bons resultados e na vitória.

Lembrei de ter lido sobre um evento ocorrido em 1816 em que um barco francês chamado Medusa encalhou em um banco de areia na costa da África e cerca de 150 pessoas tiveram que partir em uma jangada improvisada e ficaram à deriva por 13 dias. Sem água, ou comida, só dez sobreviveram...

Em meio ao desespero e ao desalento, os verdadeiros sobreviventes conseguiram se arrancar daquela situação, ou pela determinação, ou pela fé religiosa, ou por um otimismo inabalável que os impulsionaram a olhar adiante e ter a certeza de que lá estaria à sobrevivência, a vida... Os sobreviventes foram justamente aqueles que a frente da balsa acenavam, apontavam, esperançosos de que o socorro viria...Como realmente veio...

Assim tal qual os náufragos do Medusa que tiveram o naufrágio, e que eu tive um barranco em que o motorista do carro que me conduzia a obra caiu, todos temos os nossos próprios “barrancos”, vivemos situações em que o chão nos falta e não sabemos ao certo se nos direcionamos aquele caminho, ou se a vida nos direcionou, apenas sabemos que para sobreviver e viver precisamos ,não entender, mas encarar a vida e repetir internamente que cada um tem um propósito e que não estamos aqui por acaso, mas somos parte de um mundo que precisa de nós.

Por fim, utilizo as palavras de Madre Tereza de Calcutá para expressar a minha emoção nesse momento por depois de uma breve conversa durante o carnaval com um estudante surdo de engenharia civil, o qual me disse o quanto o motivava os meus textos, ter finalmente descoberto o meu propósito... “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
(Trecho da Música Sonho de um Carnaval de Chico Buarque)
 

Postado por Jamildo Melo | Notícias | permalink | imprimir | enviar

16 Comentários | comente | cadastre-se | recupere sua senha

Por - Ismael Silva | Março 14, 2012

Simplesmente sem palavras para descrever a Perfeição de suas palavras! Estou tendo o prazer de ler pela primeira vez uma publicação sua, e estou emocionado diante de um verdadeiro e inquestionável Exemplo de Vida?! Parabéns por esse dom de emocionar, de mudar conceitos; de tocar a consciência; transformar Vidas com humildes palavras! Bjos e Abraços de um Piauiense que a partir de hoje é um admirador e fã de sua História!

Por - Eufrásio | Março 12, 2012

A cada artigo você se supera. Este otimismo e alegria contagia a todos que têm o privilegio de conhecê-la, principalmente no ambiente de trabalho.

Por - Manoel Rafael | Março 11, 2012

Minha Querida colega da UFPE,tenho muitas saudades das nossas conversas, das opiniões sempre muito fortes, mas era indiscutível que você seria um exemplo pra muitos. Meus parabéns e que Deus te guie.

Por - márcio | Março 05, 2012

Oi Manu, mais uma vez parabéns e muito obrigado pelo texto. Fico sabendo de você e aprendo mais sobre acessibilidade. Quantos aos sobreviventes, vislumbro que a força de vontade é das mais eficazes armas que dispomos.

Por - Natália Modesto | Março 03, 2012

Prima, o carnaval em Pernambuco realmente está no nosso sangue. Perdi esse ano com um aperto no coração porque ia fazer prova, mas fiquei felicíssima quando soube que você marcou presença (e com louvor!). Sinto muito orgulho da sua força e coragem, e é sempre válido enfatizar o quanto você é fonte inspiradora para suas primas "caçulas". Brilhando feito o sol, essa é nossa Manuela. Um grande beijo

Por - Marcos Ribeiro | Março 02, 2012

É manu lembro claramente de alguns cadeirantes que estavam lá em baixo seguindo todo o percuso do desfile do galo, ai penso... que coragem né? mesmo com aquela multidão, mas eles estavam lá. É mais uma conquista para as pessoas com deficiência em nosso estado, em breve a SEAD/SEDSDH irá realizar outros eventos. Para quem não conhece add o facebook da sead, é so procurar SEAD PERNAMBUCO. Grande agraço.

Por - Manuela Dantas | Março 01, 2012

Mãe, Obrigada por estar comigo em todos os momentos que mais preciso de apoio. Creio que devo ter feito algo muito bom para merecer ter uma mãe tão boa quanto você ao meu lado. Te amo! Bjs., Manuela

Por - Beta | Fevereiro 29, 2012

Filha, Fiquei emocionada com sua palavras e por voce ter um coracao tao generoso e que sempre se preocupou com as outras pessoas desde o inicio. Tenho a felicidade de ter o proposito de ser sua mae. Te amo filha! Bjs.

Por - Amanda | Fevereiro 29, 2012

E verdade Manu, nao importam as lutas que passemos, desde que nossos olhos estejam voltados para Aquele que nos deu o dom da vida! sem questionar nem reclamar, devemos apenas confiar Em Deus e seguir com o proposito que Ele tem pra nos! parabens pelo artigo!

Por - Eufrasio | Fevereiro 29, 2012

Os seus artigos fortalacem aos que têm e não têm fé. Não só os deficientes mais também aqueles que com saude física e mental perfeita não têm a mesma garra e disposição para a vida e para o trabalho como você. É muito bom ter você como amigo e execelente e competente colega de trabalho. abraços.

Por - José Candido | Fevereiro 27, 2012

Que bom! Fico feliz porque as pessoas conseguem sorrir, a despeito de todas as dificuldades que enfrentam diariamente. Que ótimo que o bom humor (que parece algo inerente da gente, gente brasileira) aparece quando se espera, não sendo ofuscado pela realidade dura como ela é. Gostei muito do artigo. Leitura gostosa que flui bem, dá esperanças e nos faz refletir (sobre o que realmente importa na vida; sobre o nosso papel neste universo em que vivemos). bjs

Por - Ana Isabel | Fevereiro 27, 2012

Como não procurei o texto nos mais comentados? Ele tinha mesmo que estar lá... Está maravilhoso, prima, como sempre! E que sua alegria nunca acabe, porque você não sabe como é bom sempre ver esse sorriso no seu rosto! =) Um beijo!

Por - Érico | Fevereiro 27, 2012

Como dizia o poetinha: A felicidade é como a pluma Que o vento vai levando pelo ar Voa tão leve Mas tem a vida breve Precisa que haja vento sem parar Manu, continue a soprar Bjs

Por - Vanessa | Fevereiro 27, 2012

Manuela, Gostei do seu look na foto! bjs.

Por - Julio | Fevereiro 27, 2012

Manuela, A vida sempre nos ensina qual o nosso propósito nesse mundo e você entendeu muito bem o seu. Parabéns!

Por - Manuela Dantas | Fevereiro 27, 2012

Amigos, Mais do que nunca é preciso cantar! Pois é Marcelo, a nossa luta continua, será um passo de cada vez e uma fé imensa de que nada será como antes. Tenho a certeza que a cidade despertou para a ecessibilidade e mais do que um direito, teremos a alegria de todas as possibilidades que baterão a nossa porta. Bjs., Manu
Nome:
Email:
Validador:  
Comentário:
 
*O comentário é de total responsabilidade do internauta que o inseriu. O Portal NE10 reserva-se o direito de não publicar mensagens contendo palavras de baixo calão, publicidade, calúnia, injúria, difamação ou qualquer conduta que possa ser considerada criminosa. Para participar é preciso ser um usuário cadastrado. Se você possui cadastro no Portal NE10, utilize seu login e senha. Para cadastrar-se, clique aqui - Este serviço é grátis. Para recuperar sua senha, clique aqui.
Jamildo Melo
é editor do Blog com Daniel Guedes
OFERTAS
iphone

  • // galerias
  • CQC agita Câmara de Vereadores do Recife CQC agita Câmara de Vereadores do Recife
  • Programa Canais do Recife Programa Canais do Recife
  • Pelada Solidária Pelada Solidária
  • Segundo dia de Lula no Recife Segundo dia de Lula no Recife
  • Academia do Parque 13 de Maio Academia do Parque 13 de Maio
  • Tribunal - Caso Alcides Tribunal - Caso Alcides


  • // twitter