Blog de Jamildo 1

Coluna de acessibilidade

Hollywood

POSTADO ÀS 22:57 EM 29 DE Janeiro DE 2012

 

Por Manuela Dantas

Ói nós aqui
Ói nós aqui
Hollywood fica
Ali bem perto
Só não vê quem
Tem um olho aberto...

(Chico Buarque, trecho da música Hollywood))

Ultima sexta após a minha rotina de trabalho, cheguei em casa mais tarde que o usual e parei para apreciar uma boa refeição. Depois da degustação preliminar, iniciei a observar as cenas exibidas na televisão e passei a contemplar um programa juvenil da TV Globo, no qual um dos personagens principais era um menino cego.

A presença daquele bonito rapaz cego com cachos dourados convivendo numa escola naturalmente com vários adolescentes sem deficiência me impressionou positivamente e minha atenção continuou mantida naquela programação habitualmente não acompanhada.

Mais adiante no mesmo programa surge um lindo rapaz cadeirante de tez morena e dono de uma voz suave que cantarolava e tocava um pandeiro animadamente com sua bandinha de bairro e eis que o astro da banda era exatamente aquele doce rapaz cadeirante que alegremente conduzia uma festinha de adolescentes regada a samba, harmonia e felicidade.

Inebriada com aquela bonita cena de diversidade, harmonia e equilíbrio entre deficientes e não deficientes, deparei-me com lembranças de cenas da novela “Viver a Vida” em que a personagem Luciana enfrentou a tragédia de um acidente que a deixou tetraplégica e a dor da perda dos movimentos, mas conseguiu por fim enfrentar bravamente aquele desafio que a vida lhe apresentou.

Decerto que a vida imita a arte ou a arte imita a vida, não necessariamente nessa ordem, mas foi justamente no momento de superação da personagem Luciana na trama, que fui
surpreendida com um acidente que me deixou paraplégica e passei a viver situações bem semelhantes com as vividas pela personagem e de um modo bem peculiar aquelas imagens diárias da belíssima moça cadeirante nas cenas da televisão acabaram por, de certa forma, me ajudar a aceitar que durante um tempo indeterminado irei viver a mesma situação que ela.

Apesar da novela não apresentar todas as dificuldades que tive que enfrentar, familiarizou-me com vários aspectos da deficiência física, antes ignorados totalmente por mim, como também percebi que apesar da situação difícil em que me encontrava poderia continuar a ter uma vida feliz e digna, se eu tomasse as rédeas da situação e valorizasse cada pequena conquista e momento agradável como se fosse um oceano de grandes realizações.

Mas, antes que vocês me perguntem, o Mateus Solano (Miguel na novela) e os filhos gêmeos ainda não aconteceram... Por enquanto... Afinal, a melhor parte da minha história ainda está por vir...

Isto posto, iniciei um processo de lembranças de imagens antigas e recentes apresentadas na mídia sobre pessoas com deficiências e me dei conta de como esse processo foi importante para a formação do meu conhecimento e a concepção de valor sobre essa realidade.

Ademais, no Brasil o convívio com deficientes que representam 24% da população, além de ser encarado de forma natural e habitual, devem ser respeitadas e criadas às condições
de convívio, trabalho, arquitetura, organização do espaço, educação, transportes, saúde e segurança que garanta a mesma qualidade de vida e cidadania para esse 1/4 do nosso povo,
que merece ser feliz.

Aliás, vinculada a importância desse contingente da nossa população tanto em termos percentuais, quanto em termos humanitários, vê-se o poder que a mídia tanto escrita quanto
fonográfica tem para colaborar fortemente com a conscientização de toda a população de seu papel fundamental na promoção da integração na sociedade de tantas pessoas que ao
certo tem muito a colaborar com o nosso país, para não falar de seu direito universal de viver dignamente.

Outrossim, lembrei de um memorável filme que assisti na minha infância, chamado Perfume de Mulher, em que Al Pacino, representando majestosamente um homem cego
que protagoniza cenas da vida real, culminando com a mais empolgante imagem em que o personagem usa sua sensibilidade aguçada para, inesquecivelmente, dançar o belíssimo tango Por una cabeza, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.

Em outro filme, igualmente genial, chamado Forrest Gump, o contador de histórias com Tom Hanks no papel principal, um homem com deficiência intelectual, mas dotado de uma
sensibilidade e generosidade sem precedentes usa essas virtudes para conquistar o respeito e admiração do povo americano.

A propósito, também gosto muito do filme Feliz Ano Velho baseado na história do escritor brasileiro Marcelo Rubens Paiva que ficou tetraplégico, após um acidente em um lago e
retrata de um modo bem real as dificuldades que enfrentou, sempre com bom humor, diante dessa situação e a força de vontade que um homem tem de ter para se inserir novamente na sociedade, o filme retrata além da força do autor, também suas fraquezas e vaidades.

E me tocou mais fortemente o filme O Escafrando e a borboleta, que narra à história de Jean- Dominique Bauby, um jornalista bem-sucedido, editor da revista Elle que, aos 43 anos de
idade, sofreu um acidente vascular cerebral. Em conseqüência desse ataque, desenvolveu uma síndrome rara, denominada síndrome do encarceramento, a qual deixou seu corpo totalmente paralisado. Ele só podia movimentar o olho esquerdo. A partir de então, Bauby tem de aprender a conviver naquele estado e a partir de uma nova linguagem de sinais com o
olho esquerdo desenvolvida é capaz de nos deixar um excelente livro como legado.

Por hora, percebe-se o forte papel da mídia de influenciar, conscientizar ou contribuir para a formação de concepções e conceitos sobre as deficiencias e como encará-las. A mídia com
seus roteiros pode prestar informações que cumpram o papel de modificar a prática cultural vigente relacionada a deficiência.

Por outro lado, a mídia contribuindo para o conhecimento das condições reais de vida do deficiente e das suas reais necessidades de acessibilidade, que dependem do apoio
da sociedade e dos poderes executivo e legislativo, pode provocar nos telespectadores a necessidade de mudar seu comportamento perante a diversidade e compreenderem que
é pelo convívio direto com todos que podemos nos aprimorar como pessoas e colaborar para a diminuição de preconceitos antigos através de uma política que vê nas diferenças um
ambiente para a construção de seres humanos melhores.

Dentro desse contexto, a formação de grupos de conhecimento de assuntos relacionados à inclusão e acessibilidade podem contribuir com a mídia, a medida que ajam para que as
mudanças ocorram e promovam motivações e estímulos para que essas novas práticas façam parte da nossa realidade.

Por fim, parefraseando John Lennon, a arte é a expressão da mente, nossa vida é nossa arte.Vivamos a nossa vida valorizando cada pessoa, cada momento, cada bom sentimento, cada sorriso, cada boa atitude, cada beijo, cada carinho, cada olhar e principalmente busquemos agir com dignidade, moral, ética, caráter, respeito, amor, para que independente da situação em que nos encontremos, possamos sempre de cabeça erguida e com olhos adiante observar o mundo e as pessoas e sentir a real felicidade no coração de fazer parte da construção de um mundo melhor, enfim a nossa vida é nossa arte e nós somos os únicos responsáveis pelo seu esplendoroso sucesso.

Quem há de negar
Que é bom dançar
Que a vida é bela
Neste fabuloso Xanadu
Eu só tenho medo
De amanhã cair da tela
E acordar...
(Chico Buarque, trecho da música Hollywood))

Postado por Jamildo Melo | Notícias | permalink | imprimir | enviar

17 Comentários | comente | cadastre-se | recupere sua senha

Por - Amador Junior | Fevereiro 08, 2012

Manu! estava passando quando me deparei com sua coluna. Adorei a matéria, uma verdadeira dose de inspiração, superação e animo, faz parecer diluir as adversidades. Gostaria muito de mostrar para meu pai, seu fã. Bjos.

Por - Manuela Dantas | Fevereiro 08, 2012

É uma alegria para mim reencontrar bons amigos que perdi o contato há anos. Reencontrei aqui vários amigos do colégio equipe, do colégio São Luís, da faculdade de engenharia da UFPE e muitos que tive o prazer de conhecer durante a minha vida. Obrigada Marcela pelos comentários, nunca esqueci a sua linda e amável família que convivi durante 3 maravilhosos anos da minha vida. Um grande beijo para todos, especialmente para Marina que cheguei a colocar no colo. Vocês continuarão sempre no meu coração. Bjs., Manuela

Por - Marcela Neves de Andrade | Fevereiro 06, 2012

Manuela, não poderia deixar de dizer como o seu artigo me tocou. Recebi o link e li sem saber quem era a autora. Tenho uma rotina corrida e normalmente não paro para ler artigos durante o expediente, mas desta vez fui presa pela sua redação primorosa. E ao final a surpresa: era aquela menina linda e meiga que conhecemos, mas que a vida nos afastou com o tempo. Quero parabenizar você pela força, pela vivacidade, pela lição e principalmente pela doçura. Bjs, Marcela

Por - marcio cavalcanti lins | Fevereiro 06, 2012

Oi Manu, parabéns por mais esta bela redação. Sua coluna já virou de leitura obrigatória para mim. Não tenho acompanhado as novelas citadas, mas fico feliz em saber deste bom serviço que as TVs prestam ao apresentar personagens deficientes convivendo em harmonia com os demais, espero que este comportamento seja a regra geral e não a exceção. Obrigado.

Por - Renata | Fevereiro 06, 2012

Manuela, parabens pelo artigo e obrigada pela motivação! Fiquei emocionada com a sua sensibilidade e capacidade de expressão. Todos nós temos uma missão nesta vida e a sua é muito especial! Voce foi escolhida, temporariamente, para representar um grupo de pessoas que precisam deste tipo apoio. Sou arquiteta de formação e visualizo como um dos desafios pessoais a contribuição para o desenvolvimento de espaços públicos acessíveis e de qualidade para todos. Estaremos juntas neste caminho. Forte abraço!

Por - Manuela Dantas | Fevereiro 02, 2012

Prezados Amigos, Gostei muito da frase do Juiz Targino em que diz que somos os artistas das nossas próprias vidas. Refletindo sobre isso é fácil entender o porquê das minhas escolhas após o acidente. Eu apenas sabia que dependia de mim a escolha de ter uma vida feliz, apesar das adversidades. Nada nos deixa mais feliz do que fazer o bem, ter atitudes honestas e verdadeiras e ser principalmente sincero comigo mesmo. Eu apenas disse para mim mesma que gosto da vida e as vezes o sofrimento faz parte dela e ele sempre passa, quando escolhemos ser feliz. Por isso, nunca quis que me achassem frágil, nunca me coloquei como vítima, nunca quis a piedade de ninguém. Pelo contrário, quero o respeito, quero a consciência tranquila, quero a verdade, quero uma vida que mereça ser vivida. Afinal,como diria o poetinha Vinicius de Moraes, sei lá a vida tem sempre razão. Bjs., Manuela

Por - Eufrasio | Fevereiro 02, 2012

Amiga. Li hoje o seu artigo desta semana. Que bela peça. As suas considerações retratam excelentemente bem a força, a garra e inteligência de pessoas dotadas como você. Um abraço e parabéns. Eufrásio.

Por - Ana Isabel | Fevereiro 01, 2012

Aahh, cheguei atarsada dessa vez! E quando ia dizer que, depois de duas ou três semans, já estava com saudade da minha dose de injeção de ânimo semanal, Érico já disse... Mas não tem nada não... é minha injeção de ânimo e pronto! hahaha Beijo bem grande, prima, e, mais uma vez e incansavelmente, parabéns! =))

Por - Kátia Parente | Fevereiro 01, 2012

É verdade Manuela que a mídia ( com seus enfeites e tudo o mais ) vem desempenhando um importante papel na questão da inclusão social. A questão da dislexia tratada numa novela das oito trouxe boas informações para a resolução de algumas coisas. Sendo uma estudiosa sobre a questão da plasticidade neuronal queria lhe dizer que a estimulação é tudo. Qto mais vc estimula mais o cérebro responde por isso acredite e continue. Linda a matéria de hoje

Por - Juiz Targino | Fevereiro 01, 2012

Cumprimentando-lhe, apresento minhas felicitações por mais um belo artigo nascido de sua fabulosa capacidade criadora. A vida por vezes imita a arte; por vezes, esta imita a vida. No entanto, é certo, que somos os artistas de nossas próprias vidas. Ab

Por - Amanda | Fevereiro 01, 2012

E quem disse que Miguel esta vindo de jegue?? Meu amor ele está vindo de avião fretado, o problema é que ele deu uma paradinha nos lugares prediletos dele tipo: NY, hawaii... pra depois te levar junto!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Por - Amanda Alcantara | Fevereiro 01, 2012

"LInda coluna Manu!! E você faz muito bem em usar seu tempo pra investir em projetos sociais e outras coisas que te fazem se sentir bem!! "

Por - José Candido | Janeiro 30, 2012

A mídia tem um potencial muito grande de influenciar nossas vidas, ditando a moda e os costumes (para não dizer a Moral). Não só televisão, com suas telenovelas, ou rádio, a qual entra nos nossos lares e ambientes de trabalho (trânsito), temos também os blogs e as mídias sociais, como espaço de divulgação e discussões sobre os mais diversos assuntos. Promover inclusão social, diversidade e afins através destas últimas é um ótimo negócio, atingindo fortemente nossa juventude, futuros "doutores" de amanhã.

Por - Janaina Alencar | Janeiro 30, 2012

Amiga-irmã Manu seu artigo também foi minha primeira leitura semanal, realmente um estímulo para superarmos os desafios que a vida nos impõe, com determinação e fé.Como sempre você é uma escritora AN (Alto Nível)!Se sem Miguel é assim imagina quando ele chegar...haja inspiração!!!

Por - Manuela Dantas | Janeiro 30, 2012

Mainha, Acho que o Miguel está vindo de jegue, como diz painho. O fato é que não chegou...rsrsrsrsr Mas aproveito o meu tempo para tentar juntar adeptos ao projeto social de acessibilidade e com o apoio da mídia impulsionar essa dinâmica para ser pauta permanente entre politicos, sociedade e pessoas de bem. bjs.

Por - Beta | Janeiro 30, 2012

De fato filha, aprendi muito com a novela e depois acabamos por usar na vida real e aprendi mais ainda com você. Sempre achei você a cara da Luciana e o Miguel está chegando. bjs.

Por - Érico | Janeiro 30, 2012

Manu, a tua coluna foi a primeira leitura desta semana. Foi uma injeção de animo. Obrigado.
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Jamildo Melo
é editor do Blog com Daniel Guedes
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