As vivências de um clássico nacional no Sertão de Pernambuco
Flamengo x São Paulo à moda de São José do Egito
15h45. O Marcello's Bar, localizado no município de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco, acaba de receber os primeiros três fregueses. O prato do dia é clássico. Flamengo x São Paulo.
Neste estado de gente briosa, palco de batalhas e revoluções seminais na formação do País, muitos torcedores gabam-se da fidelidade ao Náutico, ao Santa Cruz ou ao Sport, trio de ferro do Recife, oásis de rivalidade local na seca do futebol do Nordeste.
Sem ter nada com isso, Marcelo, o dono do bar, ajusta o telão e os dois televisores do Marcello's. Não é, assim, um Maracanã, local da partida; mas tem boas condições para se assistir ao confronto entre os dois maiores campeões nacionais desde a criação do Campeonato Brasileiro, em 1971.
Jogos como este costumam trazer ótimo público ao Marcello's Bar. "Ano passado isso aqui estava entupido, deu 300 pessoas”, relembra Marcelo.
“Se tiver São Paulo x Flamengo e Náutico x Sport eu passo São Paulo x Flamengo. Dá mais gente", sentencia.
Desta vez, porém, a presença deverá ser reduzida, afinal é sábado, dia da feira municipal em São José do Egito. O que não diminui é a empolgação da torcida que há de vir.
O primeiro são-paulino a chegar é o próprio Marcelo. Torcedor fervoroso, a ponto de botar para tocar o hino de seu time (nos mais variados ritmos musicais) durante o jogo, evita apenas pôr na parede lateral do bar a bandeira de 5 m de largura por 2,5 m de altura. Para não afastar a freguesia.
Apita o árbitro
A bola rola, às 16h10, num Maracanã com mais de 60 mil pessoas. Há cerca de 25 torcedores no Marcello's Bar, de times de quatro estados. Vasco, Flamengo, Botafogo e Fluminense (RJ); Corinthians, São Paulo e Palmeiras (SP); Sport, Náutico e Santa Cruz; e até o Grêmio (RS) têm representantes no Marcello's Bar. Os jogos em São José do Egito são assim, democráticos. Uma democracia pautada pela mídia nacional.
"Comecei a assistir aos jogos do Flamengo desde 2001", conta Eriston Pereira, 16 anos. "O Flamengo tinha um time muito bom, e a torcida era muito bonita", explica a sua torcida pelo time carioca. "Não pensava muito sobre o Náutico, o Sport, o Santa Cruz. Passava pouco jogo."
O jogo vai passando, equilibrado, com leve superioridade do Flamengo, de Eriston. Mas aos 25 minutos ele murcha. Lá no Maracanã, Hernanes recebe lançamento primoroso de Dagoberto e, com dois toques, dribla o goleiro Bruno e rola a bola para as redes, abrindo o placar para o São Paulo.
Ao lado de Eriston, seu amigo Kauê Lopes, 14, entre um copo de refrigerante umas rodelas de linguiça calabresa, anseia pela reação do Flamengo. "É o time que eu amo de coração", diz o garoto de olhos esbugalhados, que não desgrudam da televisão. "Nunca perdi (de assistir a) um jogo do Flamengo. Tenho DVD, pôster, tudo. Mas torço pelo Sport também", afirma o adolescente, pouco antes de levar as mãos à cabeça ao ver Rogério Ceni ir buscar no cantinho uma bola cabeceada por Ronaldo Angelim e salvar o empate.
Na mesa ao lado Edmilson Campos, 28, vibra com as defesas do goleiro são-paulino. "É o meu ídolo. Dá São Paulo hoje. Não tem para ninguém", garante. A paixão dele pelo Tricolor paulista surgiu no início da década de 1990. "
Edmilson comenta que, em São José do Egito, a maioria das pessoas torce pelo Flamengo, pelo São Paulo e pelo Corinthians. A impressão de Edmilson encontra fundamentação em pesquisa feita pelo Instituto Maurício de Nassau, que apurou quais são os times pelos quais os habitantes de Pernambuco torcem.
Não apenas em São José do Egito, mas no Sertão pernambucano como um todo, estes são os três times de maior torcida, segundo a pesquisa: 26,3% das pessoas torcem pelo Flamengo, de Eriston e Kauê; 9,5%, pelo Corinthians; e 7,8%, pelo São Paulo, de Edmilson. Os times de fora do estado têm a preferência de 61% dos habitantes do Sertão, onde os três grandes times do Recife — soberanos na capital e região metropolitana — chegam apenas a 10%, juntos. (Saiba mais da pesquisa)
"Aqui em São José tem muito torcedor do Sport e do Náutico também, m
O que mais agrada a Edmílson em torcer pelo São Paulo é estar sempre brigando por títulos. "Seis Brasileiros, três Libertadores e três Mundiais não é para ninguém, não". O pensamento é compartilhado pelo companheiro de mesa Marconi Rabelo, 15. Mais novo, fez-se são-paulino nas glórias mais recentes: desde 2005 o time conquistou uma Libertadores, um Mundial e três campeonatos nacionais.
Torcedor de fé, Marconi fez o sinal da cruz após aquela defesa de Rogério, na qual Kauê se frustrou e Edmilson vibrou; e logo em seguida, termina o primeiro tempo:
Segundo tempo
Muita gente chega no intervalo e já passa de 50 o número de torcedores no Marcello's.
O Flamengo se impõe mais e mais. Logo aos seis minutos, um gol anulado do time carioca. Aos doze minutos, Rogério Ceni defendeu outra bola difícil. Era a 12ª finalização do Flamengo. O São Paulo, com apenas duas, segurava o 1 x 0.
Mas o jogo começa a mudar aos 16 minutos, quando o árbitro Wilton Pereira Sampaio assinala pênalti para o Flamengo. Os jogadores do São Paulo questionam a marcação; os são-paulinos no Marcello's Bar também. Mas esquecem tudo quando Rogério Ceni defende a cobrança de Petkovic. Só que o árbitro manda voltar. Mais confusão. E aí não tem jeito.
O sérvio leva ao delírio os flamenguistas de São José do Egito, ao estufar as redes de Rogério Ceni.
Thiago Souza, 19, é um deles. "Sou Flamengo desde a barriga de minha mãe", diz ele, que seguiu o time do pai e diz torcer também para os times de Pernambuco. Quando não jogam contra o Flamengo.
Eliacir Júnior, 25, de boné, numa mesa próxima, é outro que acompanha o time desde pequeno por influência do pai. "Assistia aos jogos e me apaixonei pelo Flamengo. Lembro do time sendo campeão brasileiro em 1992. Tinha seis ou sete anos."
Eliacir pensa que seu sentimento pelo Flamengo não se explica, mas aponta a falta de estrutura dos times de Pernambuco como o motivo de pouca torcida, e o fato de disputar poucos títulos nacionais também.
Ao seu lado, o corintiano Leandro Lima assiste ao jogo com a cabeça no Pacaembu, onde, no mesmo momento, Corinthians e Grêmio se enfrentam. A ansiedade lhe toma quando aparece no telão a bolinha que indica gol em outro jogo da rodada. É gol do Grêmio. Mas Leandro está tranquilo, pois seu time havia feito dois na primeira etapa.
No Maracanã, a zaga do Flamengo bobeia, e Hugo sai na cara do gol, na frente de Bruno. Mas o meia-atacante tricolor perde chance incrível, chutando cruzado, para fora. Para o desespero de são-paulinos como José Oliveira, 35.
O Rubro-negro carioca, porém, cresce com a grande atuação Petkovic, jogador que tem história no clube. Renato Pereira, 20, no Marcello's Bar, ainda lembra do gol de falta do meia contra o Vasco na final do Campeonato Carioca de 2001, na conquista do tri carioca.
Oito anos depois, o sérvio desequilibra o confronto ao dar um passe primoroso para Zé Roberto. O meia-atacante invade a área pela esquerda e bate cruzado, virando o jogo no Maracanã e levando à loucura os irmãos Daniel Carlos e Zé Carlos Vieira e os demais flamenguistas no Marcello's Bar — que comemoram efusivamente e, ainda, provocam o dono do bar, são-paulino. "Marcelo, coloca o hino aê!"
Depois do gol não há muito o que fazer.
A vitória já parece ter dono.
De fato, o Flamengo foi bem melhor na partida.
Aos 48 minutos, o árbitro dá o apito final.
Flamengo 2 x 1 São Paulo.
Mais festa dos rubro-negros.
Eles não precisam ir ao Maracanã.
Já estão lá.
Apesar das gozações e por mais que os torcedores do São Paulo chiem no final e reclamem da arbitragem, nenhuma confusão chega perto de acontecer. Pelo contrário, o clima é de harmonia. Assim é um clássico em São José do Egito.
“Aqui você pode pular, pode torcer, pode ser torcedor. Você vem pelo som, pelo ambiente. É um lugar para se expressar. Você encontra torcedores de outros times aqui também", diz Mário Eduardo Monteiro, 27, após a partida.
"Todo pernambucano torce para Pernambuco. Mas tem aquele que é o time do coração. O meu é o Botafogo.”
Texto, imagens e edição de vídeo: Breno Pires/Blog do Torcedor
Leia mais:
» Os números das torcidas no Sertão
Leia também:
» Futebol pernambucano perde torcedores a conta-gotas





Eles não precisam de um Maracanã: As vivências de um clássico nacional em São José do Egito
Fique por dentro das obras de ampliação do CT do Náutico
Adeíldo: sem apoio nem previsão de retorno aos gramados, jogador do Central precisa de apoio no tratamento