Rio 2016. Agora é fiscalizar
Por João de Andrade Neto*
Em primeiro lugar devo dizer que torci contra a escolha do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. E vou enumerar alguns motivos.
Porque o Brasil que sediará as olimpíadas é o mesmo Brasil onde o esporte olímpico sempre viveu à míngua, onde os atletas não possuem apoio, onde não há políticas públicas de esporte e a maioria esmagadora das escolas públicas ou privadas não possuem sequer áreas para práticas esportivas. Não acredito que tudo isso irá mudar radicalmente do dia para a noite, ou em sete anos, como acreditam alguns ufanistas. Afinal, os cartolas e políticos são os mesmos.
Porque a realização do Pan 2007 teve como principal legado enormes contas superfaturadas. Um orçamento que se iniciou com quase R$ 400 milhões e acabou em quase R$ 4 bilhões. Dinheiro implantado em construções de estádios que hoje são obsoletos ou não servem para as Olimpíadas, como o Parque Aquático Maria Lenk, que custou milhões e terá que ser quase que totalmente reformulado. Só em instalações esportivas foram torrados perto de R$1,080 bilhão. Pouco mais de 3% da iniciativa privada. Quase 97% do dinheiro ali colocado eram oriundos do governo, em suas diferentes escalas. Só a apresentação da candidatura carioca custou R$ 100 milhões aos cofres públicos.
Além disso, foram muitas promessas feitas e jamais cumpridas como novas linhas de metrô e a despoluição das lagoas de Jacarepaguá e da Barra.
O mesmo pessoal que organizou o Pan está à frente do projeto Olimpíadas. Não há porque acreditar que será diferente dessa vez. Muita gente vai encher os bolsos. Alguém duvida?
Porque acho que uma olimpíada se faz com estrutura e não apenas com belos cartões portais, discursos emocionados, um competente vídeo promocional e lágrimas.
Porque sete anos não é tanto tempo assim. Mas o bastante para sair gastando, com ou sem concorrência, com ou sem a fiscalização ideal. Tudo em nome do cumprimento dos prazos e etc.
Porque o Governo para arcar com a sua parte dos R$ 28 bilhões prometidos (se não houver superfaturamento, que acho difícil) provavelmente terá que tirar de algum lugar. Mais impostos? Ou diminuição de recursos para lugares onde os olhos do mundo não chegam, como o interior do Piauí, de Rondônia, de Pernambuco, do Acre, do Mato Grosso, etc.
Enfim gostaria de ver as Olimpíadas no Brasil. Mas não agora e sim quando o país estiver preparado. Com saúde, educação e segurança para falar do básico. A construção de uma obra não se começa pelo teto e sim pela base.
É como se um sujeito que vive com orçamento apertado fizesse uma reforma na casa, colocando tudo no cartão de crédito, para receber uma visita importante. Depois que ela fosse embora, o sujeito continuaria apertado e agora endividado. PS: O Canadá acabou de pagar as dívidas de Montreal-76 trinta anos depois.
Mas agora que o Rio foi escolhido nos resta fiscalizar. A começar de agora, também com a Copa do Mundo (fui novamente contra). E torcer para que tudo dê certo. Que se deixe um legado positivo em infra-estrutura e esportes, não só para o Rio, mas indiretamente para todo o Brasil. Afinal será o país que pagará a conta. Eu torcerei por isso. Mas não acredito. E tenho meus motivos.
*João de Andrade Neto é jornalista da Editoria de Esportes do Jornal do Commercio
Obs.: A opinião do autor não necessariamente reflete a opinião do Blog do Torcedor

