Folia com protesto
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ATLANTA, ESTADOS UNIDOS - Desde abril, quatro geradores que alimentam sistemas de emergência de usinas nucleares nos Estados Unidos falharam, uma série de incidentes incomuns que atraiu a atenção de inspetores federais e pode levar o setor a reexaminar seus planos de manutenção.
Nenhuma das falhas ameaçou a população. Mas os geradores a óleo diesel têm a função crucial de fornecer eletricidade para o sistema de refrigeração que evita que o combustível nuclear quente e radioativo superaqueça, derreta e lance radiação para o meio ambiente.
Foi isso que aconteceu neste ano quando a usina nuclear de Fukushima Dai-ichi, no Japão, ficou sem seu sistema de reserva de resfriamento após um terremoto e tsunami.
Três geradores a diesel não funcionaram depois da passagem de tornados pelo Alabama que derrubaram linhas de transmissão elétrica que servem a usina nuclear de Browns Ferry, pertencente à Tennessee Valley Authority (TVA) às margens do rio Tennessee em abril. Duas falhas ocorreram por problemas mecânicos e um gerador não estava disponível porque estava em manutenção programada.
Outro gerador falhou na usina North Anna na Virgínia após um terremoto em agosto. Os geradores não funcionaram quando necessário em pelo menos doze outras circunstâncias desde 1997 por causa de falhas mecânicas ou porque estavam em manutenção, segundo uma análise da Associated Press sobre os relatórios compilados pela Comissão Nuclear Regulatória dos Estados Unidos (NCR, pela sigla em inglês).
"Para mim, não se trata de algo alarmante", disse Michael Golay, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que estuda os riscos de usinas nucleares. "Mas, se essa tendência continuar, certamente temos de olhar para a questão. "
No mínimo, as falhas fizeram com que inspetores da comissão nuclear aumentassem a atenção sobre as usinas onde os problemas aconteceram. Além disso, funcionários do setor e acadêmicos dizem que os incidentes podem levar a comissão a advertir formalmente as operadoras de usinas nucleares sobre as falhas recentes e fazer com que as empresas do setor reavaliem o que pode desativar um gerador.
Algumas pessoas ligadas ao setor acreditam que esses acontecimentos podem influenciar nas novas regras que a comissão vai lançar em resposta à crise no Japão.
A falha de um único gerador não é uma calamidade. Todos os reatores têm pelo menos um gerador de reserva e em alguns casos, mais de um. Se os geradores a diesel falharem, as usinas nucleares podem funcionar em segurança com baterias durante horas ou usar bombas movidas a vapor para manter a água de refrigeração fluindo.
Mas a perda de toda a energia de emergência - incluindo os geradores a diesel - representa uma crise. Isto aconteceu em 11 de março quando um terremoto e um tsunami desativaram todos os geradores a diesel na usina japonesa. Três dos seis reatores derreteram. Houve explosões na instalação e a liberação de radiação exigiu a evacuação de cerca de 100 mil pessoas.
Nos Estados Unidos, uma média de cerca de um gerador a diesel por ano falhou quando requisitado desde 1997. Investigadores do governo, que examinaram as falhas dos geradores a diesel nos Estados Unidos de 1997 a 2003, calcularam que a probabilidade média de um gerador a diesel falhar, em algum momento durante um período de oito horas, foi ligeiramente superior a 2% ou 3%, dependendo da base da dados analisada.
Apesar da baixa probabilidade, a falha de um gerador pode se tornar séria quando combinada com outros problemas, principalmente erros humanos.
Um exemplo é o acidente que cortou a energia por menos de uma hora na usina Vogtle, na Geórgia, em 20 de março de 1990. Na época, os funcionários da usina haviam acabado de instalar combustível novo no reator da unidade 1. Uma das duas linhas que fornece energia da rede para o reator foi desligada para manutenção, assim como um dos dois geradores a diesel do reator.
Um motorista que fazia entregas bateu a traseira do seu caminhão num poste, derrubando a única fonte de eletricidade que vinha da rede elétrica para o reator da unidade 1. O único gerador disponível foi ligado, mas em seguida parou de funcionar. Os funcionários da usina o religaram, mas não conseguiram fazer com que funcionasse.
Finalmente os funcionários fizeram uma ligação direta nos controles e fizeram o gerador funcionar. Neste período, as temperaturas no interior do reator subiram de 32ºC para 58ºC, mas o acidente não se tornou algo sério e não houve vazamento de radiação.
Os tornados que atingiam o sudeste dos Estados Unidos em 27 de abril interromperam linhas de transmissão, provocando a queda de energia proveniente da rede em Browns Ferry, no Alabama. Um dos oito geradores a diesel que serve os três reatores estava em manutenção. Os demais foram imediatamente ligados, fornecendo energia para a usina.
No dia seguinte, os operadores da usina perceberam um pequeno vazamento de óleo hidráulico num desses geradores de emergência, segundo relatório. O óleo, que no começo vazava uma gota por minuto, passou a jorrar. Com a instabilidade da geração de energia pelo gerador, os funcionários da usina decidiram fechá-la. Dois reatores ficaram sem seus sistemas de resfriamento por um breve período, embora nenhum dano tenha sido registrado. Outro gerador falhou em 2 de maio. Funcionários da TVA disseram que o defeito foi decorrência da má instalação do equipamento.
Inspetores do NCR na usina disseram que esperam por mais informações antes de tomarem medidas adicionais. A quarta falha aconteceu quando o maior terremoto de 177 anos na Virgínia atingiu a Estação de Energia North Anna e seus geradores de emergência a diesel foram automaticamente ligados.
Menos de uma hora mais tarde, os funcionários desligaram um gerador porque havia um vazamento de fluído refrigerante disse o Gerald McCoy, chefe de uma unidade do NCR que supervisiona inspeções federais na usina. "Estamos preocupados com o fato de que os geradores a diesel estão apresentando problemas e isso pode ser alvo de futuras inspeções", disse McCoy.
A Dominion Virginia Power diz que o problema foi causado por um defeito na vedação, que gerou o vazamento do fluido, disse o porta-voz da empresa, Richard Zuercher. A empresa de energia e funcionários do NCR ainda examinam o incidente.
Especialistas dizem que nenhum fator isolado parece conectar as quatro falhas. Nathan Ives, gerente sênior de serviços de consultoria da Ernst & Young, disse que os incidentes podem fazer com que a indústria da energia nuclear reexamine os tipos de falhas de componentes que podem desligar um gerador.
Relatórios mostram que funcionários da TVA haviam considerado previamente que o componente que causou uma das falhas em Browns Ferry poderia desligar o gerador.
Ives, experiente operador de reatores que presta consultoria sobre questões de manutenção para usinas nucleares, disse que embora não considere que as falhas representem um grande problema, ele acredita que vale a pena analisar. "Todos, incluindo eu mesmo, ficam sempre preocupados com a falha dos geradores a diesel", disse ele. John Lane, engenheiro de segurança e risco do Escritório de Pesquisa Regulatória do NCR, disse ter entrado em contato com outros cientistas para uma discussão improvisada sobre as falhas Ele disse que ainda não está claro o quão significativo são os números.
Ele comparou a situação com jogar uma moeda. Embora você espere tirar cara metade das vezes se fizer doze tentativas, é possível que haja mais caras se você jogar menos vezes.
"Se você jogar uma moeda 10 vezes, você pode ter 6, 7 ou 9 caras", disse Lane. "E você aceita a questão, isso não significa que se trata de uma moeda injusta." As taxas de falha caíram consideravelmente, tendo em vista que ficavam acima de 10% nos primórdios da geração de energia nuclear, segundo relatórios da NCR.
Membros do Instituto de Energia Nuclear, um grupo lobista do setor, tinham como meta anos atrás conseguir índices de segurança de 95%, disse Alex Marion, vice-presidente de operações nucleares da entidade.
Marion disse que quando os geradores a diesel falham, os funcionários avaliam a raiz do problema e determinam se é um evento casual ou pode ser transformar um problema maior que poderia acontecer também com outros geradores. Os resultados são compartilhados por toda a indústria. Marion disse que os métodos do NRC exageram o risco de falha de geradores porque assim que um problema é identificado e solucionado, é improvável que aconteça novamente. "Estamos continuamente aprendendo, nos desenvolvendo e evoluindo'', disse ele.
Por Ray Henry, da Associated Press.
BRASÍLIA - O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou dia 1º que o governo brasileiro está reavaliando a política de expansão do programa nuclear do país até 2030, que, por enquanto, resume-se às três usinas de Angra dos Reis, no Sul Fluminense. Ou seja, não há garantias de que as quatro novas usinas já anunciadas sairão do papel. Apesar da declaração, nos bastidores, o governo considera remota uma revisão dos planos.
Na última segunda-feira, a Alemanha — que tem quase 30% de seu consumo energético abastecido por usinas nucleares — anunciou que encerrará esse tipo de geração até 2022. A tecnologia alemã é a base de operação das usinas brasileiras.
— Nossa política de energia nuclear está mais ou menos circunscrita às duas térmicas existentes (Angra 1 e Angra 2) e, agora, à construção de Angra 3. Há previsão de mais quatro usinas, mas é uma previsão, dentro dos conceitos e da política energética do Brasil — disse Lobão.
No planejamento energético brasileiro, existe a previsão de construção de quase uma dezena de hidrelétricas, quatro das quais eram dadas com certas. No governo, há muitos defensores da matriz nuclear, devido ao progressivo encarecimento da energia hidrelétrica, por conta de custos ambientais e de distância, com a exploração do potencial da Amazônia, além da questão ecológica. Mas Lobão disse que o governo atua com cautela: — Essa previsão (de quatro novas usinas nucleares) está sendo reavaliada pelo Ministério de Minas e Energia e pelo Conselho Nacional de Política Energética.
Não há decisão, ainda, da instalação de novas usinas.
Lobão avalia que as usinas brasileiras estão entre as mais seguras do mundo. Mas admitiu que a reavaliação do plano nuclear está ligada ao acidente em Fukushima, no Japão: — Após esse episódio no Japão, eu, como ministro, tomei a iniciativa de determinar uma avaliação da segurança das usinas nucleares, o que não quer dizer que se vai prosseguir ou não. Estamos num processo de reavaliação.
Já o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, afirmou que caberá à presidente Dilma Rousseff decidir se a política nuclear terá ou não mudança. Ele disse que, hoje, uma das grandes dúvidas é saber como a Alemanha substituirá esse tipo de energia por fontes renováveis e não poluidoras.
Na noite do dia 1º, o governo driblou forte resistência da oposição e conseguiu aprovar no Senado a Medida Provisória (MP) 517, que estabelece regime especial de tributação para construir usinas nucleares. O texto vai à sanção presidencial e inclui a prorrogação da Reserva Geral de Reversão (RGR), encargo que forma um fundo de compensação e arrecada R$ 2,5 bilhões por ano do setor elétrico. O líder do PSDB, senador àlvaro Dias (PR), criticou o incentivo à instalação de novas usinas em meio a discussão mundial questionando essa fonte de energia.
O Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear) tem como principal alvo a construção de Angra 3, já que valerá para projetos aprovados até dezembro de 2012. O Renuclear isenta de pagamento de IPI e Imposto de Importação as compras de equipamentos, insumos e materiais de construção, para a instalação desses projetos.
Já a RGR, cuja cobrança significa cerca de 2% da conta de luz, foi estendida por 25 anos. A previsão era de que o fundo, criado em 1957, fosse extinto em dezembro de 2010. O governo argumentou que ele era necessário para bancar programas de universalização de energia. A conta acumulada da RGR está em R$ 15 bilhões.
Texto de Chico de Gois, Eliane Oliveira, Adriana Vasconcelos e Mônica Tavares (Agência Globo)
BERLIM - A Alemanha, a primeira grande potência industrial que renuncia à energia nuclear, decidiu nesta segunda-feira fechar os últimos reatores do país em 2022 após a catástrofe da central nuclear japonesa de Fukushima.
"Após longas consultas, a coalizão chegou a um acordo para dar fim ao recurso à energia elétrica", declarou o ministro do Meio Ambiente, Norbert Rottgen, após sete horas de negociações no escritório da chanceler Angela Merkel.
Quatorze dos 17 reatores alemães não estarão mais em serviço no fim de 2021 e os três últimos - os mais novos - serão utilizados até 2022 no mais tardar, explicou o ministro, que chamou a decisão de "irreversível".
Os sete reatores alemães mais antigos já haviam sido desconectados da rede de produção de energia elétrica, à espera de uma auditoria solicitada em março por Angela Merkel após a catástrofe da central nuclear de Fukushima. Os sete - além de um oitavo, que registra falhas reiteradas - não serão mais reativados, segundo o ministro. O governo formalizará a decisão em 6 de junho.
A Alemanha terá que encontrar até 2022 uma forma de produzir 22% de sua energia elétrica, atualmente assegurados pelas centrais atômicas. "Nosso sistema de energia deve e pode ser fundamentalmente modificado", afirmou Angela Merkel nesta segunda-feira.
Os Verdes, que viram sua popularidade disparar após o acidente de Fukushima, insistem na necessidade de recorrer às energias renováveis, ao invés das centrais de carvão. "Não se trata apenas de saber como sairemos da energia nuclear, mas também a que velocidade, e com que ambição, ingressamos nas energias renováveis", destacou Claudia Roth, uma das líderes dos Verdes.
Ao decretar o fim da era nuclear civil em 2022, Merkel retoma uma das promessas mais importantes do início de seu segundo mandato, que foi também uma das principais de sua campanha para as legislativas de 2009. No fim de 2010, a chanceler alemã conseguiu aprovar uma prorrogação de 12 anos em média para a duração legal da exploração dos reatores do país, contra a opinião pública do país, o que provocou uma explosão do sentimento antinuclear na Alemanha. O governo precedente de social-democratas e Verdes prometera deter o programa nuclear.
Com a decisão do fim do ano passado, Merkel provocou um aumento dos sentimentos antinucleares na Alemanha, que se traduziram em grandes manifestações, a última delas no sábado, com 160.000 pessoas em 20 cidades do país. Mas o momento decisivo foi a catástrofe da central nuclear de Fukushima em março.
Merkel paralisou imediatamente as centrais mais antigas e iniciou um debate sobre o abandono do programa nuclear civil. A mudança foi considerada uma manobra oportunista e não impediu a derrota em 27 de março nas eleições regionais de Bade-Wurtemberg (sudoeste), reduto eleitoral dos conservadores, que governavam a região há 50 anos.
Os conservadores perderam o governo local para os Verdes, que pela primeira vez assumiram o controle de uma região. O governo de Merkel terá agora que enfrentar a previsível irritação do poderoso lobby nuclear alemão, que não hesita em mencionar o fantasma de apagões no país, especialmente no inverno.
Da Agência France Presse.
RIO DE JANEIRO (RJ) - Movimentos ambientalistas pediram a autoridades da Alemanha que desistam do acordo com o Brasil que prevê um subsídio de 1,3 bilhão de euros (cerca de R$ 3 bilhões) para a construção da usina nuclear de Angra 3, no município de Angra dos Reis (RJ). A iniciativa partiu da ONG Urgewald e de outras dez instituições, que assinaram carta enviada à chanceler Angela Merkel e aos ministros da Economia, das Finanças e das Relações Exteriores, segundo a BBC Brasil.
No documento, as ONGs alegam que o Brasil é um país com baixos padrões de segurança e não conta com uma fiscalização nuclear independente. Como argumento, citam o caso de Angra 2 — também resultado de uma parceria com a Alemanha —, que funciona há dez anos sem uma licença permanente.
Os ambientalistas alegam ainda que o projeto de Angra 3, feito nos anos 80, está ultrapassado. E que, por isso, apresenta sérios problemas relativos à segurança das pessoas e do ecossistema.
Desde a década de 70, a Alemanha colabora com o programa nuclear brasileiro. No caso de Angra 3, o país se comprometeu em subsidiar a empresa alemã Siemens, que forneceria equipamentos e insumos para construir a usina. Este tipo de subsídio estatal tem o objetivo de proteger empresas alemãs em caso de fracasso de empreendimentos no exterior. Ano passado, a Alemanha reafirmou seu compromisso com Angra 3, mas nenhum contrato chegou a ser assinado entre os dois países.
— A região prevista para Angra 3 sofre fortes chuvas e está sujeita a deslizamentos. Em casos como estes, a rota principal de fuga, a Rio-Santos, geralmente é interditada. Se houver acidentes, será preciso retirar cerca de 170 mil pessoas dali. Sem a rodovia, fica difícil — disse Barbara Happe, consultora da ONG Urgewald, que já morou no Brasil.
Da Agência Globo.
RIO DE JANEIRO (RJ) - Uma alteração — ainda mal explicada — tirou do texto final da licença de instalação da usina nuclear de Angra 3, concedida no final de 2009, o item que obriga a Eletronuclear a assumir a manutenção e o custeio de duas importantes unidades de conservação na região de Angra dos Reis, o Parque Nacional da Serra da Bocaina e a Estação Ecológica (Esec) de Tamoios. A exigência, que constava da licença prévia, de 2008, simplesmente desapareceu.
Até hoje, o convênio em que a Eletronuclear se compromete a repassar R$ 13 milhões em cinco anos para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que administra as unidades, não foi assinado. Para especialistas em licenciamento ambiental, a situação é atípica e irregular. Reportagem do GLOBO, há uma semana, mostrou que a Eletronuclear contratará uma auditoria para reavaliar a segurança das encostas no entorno das usinas de Angra 1 e Angra 2.
Com grande área de Mata Atlântica nativa, o Parque Nacional da Serra da Bocaina, da década de 70, e a Esec de Tamoios, de 90, foram criados como uma forma de proteção ao meio ambiente justamente em decorrência da instalação das usinas nucleares na região. A inclusão das unidades no rol das condições para a instalação de Angra 3 foi considerada uma vitória do ministro do Meio Ambiente na época, Carlos Minc, atual secretário do Ambiente do estado.
Minc também incluiu na licença prévia outras exigências que chegaram a gerar polêmica: a Eletronuclear deveria se comprometer com a construção de um repositório — destino final para o lixo atômico, que está até hoje em depósitos iniciais no terreno das usinas —, contratar um monitoramento ambiental de um órgão externo e destinar recursos para as obras da estrada Paraty-Cunha. Esta última é uma importante rota de fuga em caso de acidente, que ainda não saiu do papel por não terem ainda sido cumpridas exigências feitas pelo Ibama.
Minc disse ter sido surpreendido pela notícia de que a exigência relativa às unidades de conservação não consta mais da licença de instalação. Ele revelou que, quando ainda estava à frente do Ministério do Meio Ambiente, recebera a denúncia de que o item havia sido subtraído do documento e exigiu do então presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, que fosse feita uma retificação.
— Era uma ilegalidade. Disseram na época que um conselho consultivo tinha solicitado por escrito a retirada do item. Mas alterar um documento desta complexidade só pode ser feito em casos muito excepcionais, depois de uma análise muito criteriosa. Exigi a reparação e fui informado que ela havia sido feita — diz o ex-ministro Minc.
O assessor de responsabilidade socioambiental da Eletronuclear, Paulo Gonçalves, informou hoje que, para a empresa, a exigência continua valendo e será cumprida, independentemente de não constar da licença de instalação. Segundo ele, as condições são cumulativas e, sendo assim, a licença de instalação não anula os termos da licença prévia.
Gonçalves explicou ainda que o convênio com o Instituto Chico Mendes ainda não foi assinado porque a empresa está verificando junto ao Ibama se os recursos investidos poderão ser abatidos do percentual que os empreendimentos com impacto ambiental têm que fazer em unidades de conservação. Pela Lei do Snuc (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), no mínimo 0,5% do total do custo do empreendimento deve ser destinado a unidades de conservação.
— Caso contrário, a empresa estará sendo penalizada porque já consta entre as condicionantes o custeio das unidades. Estaríamos pagando duas vezes — afirma o assessor da Eletronuclear.
Para o advogado especialista em direito ambiental Rogério Zouein, a subtração da exigência relativa às áreas de conservação é um absurdo: — Há indícios graves de irregularidade. E, se fosse séria a informação da empresa de que, para ela, a exigência continua valendo, já deveria ter assumido as unidades, o que não aconteceu. Se nada fez, não devia nem ter obtido a licença de instalação.
Zouein considera inaceitável a justificativa da Eletronuclear de que ainda não cumpriu a exigência porque pretende abater os valores do percentual estabelecido pela Lei do Snuc: — A empresa deveria ter feito a alegação antes de aceitar a exigência.
Paulo Affonso Leme Machado, professor de direito ambiental da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e um dos maiores especialistas no assunto do Brasil, também chama atenção para o fato de que a licença de instalação não pode ser concedida sem que a licença prévia tenha sido adequadamente cumprida.
— É uma ilegalidade que fere o processo lógico do licenciamento. Uma mudança é algo atípico, que só pode acontecer a partir de estudos muito sérios. Uma licença não é um ato cosmético em que você vai sobrepondo camadas até acertar o que for melhor para o empreendimento. É por isso que se faz, por exemplo, o estudo prévio de impacto ambiental, o Eia/Rima — observa Machado. Coordenador regional do Instituto Chico Mendes até o ano passado e ex-superintendente do Ibama no Rio, o analista ambiental Rogério Rocco classifica o episódio de estelionato ambiental.
— O descrédito do licenciamento é muito grande. ê um cheque sem fundo. A sociedade tem a crença de que as exigências vinculadas serão cumpridas, as usinas entram em funcionamento e não há cumprimento algum — critica Rocco.
O ex-presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, que assina as duas licenças, não foi localizado para comentar o fato. Procurado, o Ibama também não retornou as ligações.
Texto de Carla Rocha (Agência Globo).
SENDAI, Japão - O Japão anunciou neste sábado ter detectado no mar, perto da avariada central nuclear de Fukushima, níveis de iodo radioativo 1.250 vezes acima do permitido, aumentando ainda mais o temor de que a blindagem de um dos reatores tenha sofrido uma fissura. Esta grande concentração de iodo radioativo agrava o risco de contaminação alimentar dos frutos do mar, tão apreciados pelos japoneses. Horas, antes, o primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, admitiu que a situação segue "imprevisível" em Fukushima.
A Agência de Segurança Nuclear japonesa anunciou neste sábado um índice de iodo radioativo 131 1.250 vezes superior ao padrão, após uma série de testes realizados na água do mar pela companhia Tokyo Electric Power (Tepco), operadora da central.
"Se alguém bebe 50 centilitros de água com esta concentração de iodo atingirá de uma só vez o limite anual que pode absorver. É um nível relativamente elevado", explicou um porta-voz da agência. O mesmo funcionário destacou que a radioatividade registrada na costa "se diluirá com a maré, impedindo que uma concentração muito alta seja absorvida por algas e animais marinhos".
"A concentração de iodo cai à metade a cada oito dias e quando a população efetivamente tiver acesso a estes produtos do mar, seu volume estará reduzido de maneira significativa", explicou. A Tepco também registrou uma concentração 80 vezes superior ao limite legal de césio 137, substância radioativa que só se reduz à metade cada 30 anos.
O índice de iodo 131 já estava 126 vezes acima do padrão na terça-feira passada no litoral do Pacífico próximo à central de Fukushima Daiichi. O governo japonês decretou então um reforço no controle sobre peixes e mariscos procedentes da costa atingida. Um nível elevado de radioatividade foi detectado em uma alface vermelha, mais recente verdura incluída na lista negra dos consumidores, embora o nível aferido não represente riscos à saúde, indicou o governo neste sábado. Especialistas da organização ambientalista Greenpeace começaram neste sábado a medir os níveis de radioatividade fora da zona de exclusão de 20 quilômetros em torno da central.
O Greenpeace acredita que "as autoridades têm sistematicamente minimizado os riscos e o alcance da contaminação radioativa", declarou em um comunicado Jan van de Putte, porta-voz do grupo. A contaminação levou o governo japonês a proibir a distribuição de leite e de alguns vegetais produzidos nas regiões mais próximas à usina de Fukushima.
Fukushima Daiichi, situada 250 km a nordeste de Tóquio, foi varrida por um tsunami de 14 metros que interrompeu o fornecimento de energia e provocou o colapso na refrigeração dos reatores, após a paralisação das bombas d'água, iniciando uma crise nuclear.Até o momento, o governo contabiliza 10.151 mortos e 17.053 desaparecidos no último balanço da catástrofe.
Da Agência France Presse. Acima, pesquisadores franceses medem níveis de radioatividade. Fotos: Kenzo Tribouillardar/AFP.
BRASÍLIA - O acidente nuclear ocorrido há duas semanas na Usina de Fukushima, no Japão, voltou a colocar em pauta, em todo o mundo, a segurança das usinas nucleares. E, no Brasil, alguns governadores do Nordeste decidiram reavaliar se região deve receber uma das quatro novas usinas que o governo federal pretende construir no país até 2030.
"Quem é que vai, em meio à atual discussão, [dizer] "eu quero agora uma usina nuclear para o meu estado". Só se for idiota. E eu não sou idiota", disse o governador do Piauí, Wilson Martins (PSB), na quarta (23). Martins fez questão de frisar que "não recuou" da disputa com outros estados nordestinos cotados para abrigar uma das usinas, mas deixou claro que o projeto a cargo do Ministério de Minas e Energia deve ser "repensado".
"Agora, mudou tudo. O mundo inteiro está repensando os investimentos em energia nuclear, até então considerada segura e limpa. E o Piauí, assim como o Brasil como um todo, não vai deixar de repensar também", afirmou o governador, alegando que a situação exige bom-senso.
O governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), também já havia mencionado, em nota, a necessidade de o país rediscutir a expansão da matriz nuclear com segurança. "A pretensão do estado de Sergipe em disputar a instalação de uma usina no nosso território pressupõe garantias plenas de segurança das instalações. Sem essas garantias, não há como defender tais empreendimentos", afirmou o governador, cuja preocupação recebeu o apoio inclusive do setor produtivo sergipano.
"Apoiamos a decisão de que a instalação de uma usina nuclear em Sergipe deve ser precedida por uma reavaliação dos sistemas de segurança atualmente em vigor", manifestou o Fórum Empresarial de Sergipe em um documento redigido em reunião no dia 15. "Cabe-nos, porém, alertar que uma ação isolada de Sergipe não é eficaz, pois o risco para nossa população é semelhante se [uma usina for] instalada em regiões limítrofes, sendo assim sugerimos uma ação integrada com os demais estados nordestinos".
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), também tem repetido que a população pode ficar tranquila pois qualquer decisão quanto à instalação de novas usinas deve demorar ao menos quatro anos, tempo suficiente para que os aspectos de segurança sejam discutidos. A cidade pernambucana de Itacuruba, a 460 quilômetros da capital, Recife, foi apontada pela Eletronuclear como uma das melhores opções para a instalação de uma usina nuclear no Nordeste.
"Entendemos as preocupações de muitos quando ocorrem eventos como os do Japão. De fato, é preciso avançar ainda mais nos estudos sobre a segurança das plantas, inclusive em situações extremas, como o recente terremoto. No caso brasileiro, porém, temos que entender que nosso programa nuclear é muito maior que uma usina nuclear e não pode ser estigmatizado. Visa, por exemplo, a desenvolver aplicativos para a área médica, propiciando diagnósticos e tratamentos de muitos males, como o câncer. No tocante à geração de energia, é preciso ter em mente que não há qualquer decisão para a construção de novas usinas no Brasil. É só olhar nosso planejamento plurianual para ver que não há previsão orçamentária nem decisão política tomada pelo governo", disse.
Na terça-feira (22), o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, assegurou que o Brasil não tem pressa para construir novas usinas e, quando isso ocorrer, será muito mais rigoroso na questão da segurança das novas instalações, em conformidade com os novos padrões adotados internacionalmente após a tragédia japonesa.
O Brasil tem duas usinas nucleares em operação, Angra 1 e 2, ambas administradas pela Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras. Angra 3 está em fase de construção. Na quarta (23), quando perguntado se o governo pode desistir de construir as quatro novas usinas, o presidente da Eletrobras, João da Costa Carvalho Neto, disse apenas que a decisão cabe ao Conselho Nacional de Política Energética e à Presidência da República.
Da Agência Brasil
Nesta terça, a partir das 10h, o professor Jorge Barón, da Escola de Engenharia da Universidade Nacional de Cuyo, da Argentina, realiza palestra intitulada "El accidente nuclear en Fukushima, situación y expectativas." O evento, aberto ao público, ocorre no auditório do Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN-NE), na Cidade Universitária. Informações: crcn@cnen.gov.br e 3797-8018.

O Movimento Ecossocialista de Pernambuco faz mobilização contra usinas nucleares, neste domingo, com concentração prevista para as 18h, na feirinha de Boa Viagem. Os ambientalistas exigem consulta à população sobre a instalação de uma usina nuclear no Estado. Pernambuco, segundo estudo da Eletronuclear, está cotado para receber uma das quatro novas usinas projetadas pra o País. Abaixo, veja cartaz do evento.
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Publicado em 17.03.2011, no Jornal do Commercio
BRASÍLIA - Ativistas do Greenpeace realizaram na sexta-feira, 18, protesto no Palácio do Planalto. O Greenpeace reivindica que a presidente Dilma Rousseff suspenda a construção da usina nuclear de Angra 3 e todos os investimentos em energia nuclear.
Vestidos de amarelo e usando máscaras, cerca de 20 ativistas participaram da manifestação. O grupo subiu a rampa do Planalto e abriu cartazes com votos de vítimas do acidente em Chernobyl, considerado o pior acidente nuclear da História, em 1986.Os seguranças retiraram os manifestantes do local, sendo que três foram presos e levados para delegacia.
Por Gustavo Miranda (Agência Globo). Fotos: Evaristo Sá/AFP Photo.
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MADRI - Manifestantes ambientalistas se reuniram na tarde da quinta-feira (17) em várias cidades da Espanha para exigir o fim da energia nuclear e o desmantelamento das seis centrais do país, pedindo que seja ouvida a "advertência" do acidente de Fukushima, no Japão.
Alguns usando máscaras e exibindo cartazes com frases como "Usinas nucleares, nem aqui nem no Japão", os manifestantes se concentraram em pequenos grupos em mais de 30 cidades espanholas, entre elas Madri, Barcelona, Sevilla e Valladolid.
As manifestações foram convocadas por organizações como a Ecologistas em Ação e o Greenpeace, que exigem o fechamento das seis centrais nucleares espanholas, principalmente duas delas, Santa María de Garoña, no norte, e Cofrentes, no leste, que utilizam uma tecnologia similar à de Fukushima.
Em Madri, cerca de 200 pessoas se concentraram na Porta do Sol, muitas delas exibindo cartazes com a frase "Todos com o Japão". "O que acontece no Japão mostra que coisas improváveis acabam de acontecer", explicou Francisco Castejón, porta-voz da Ecologistas em Ação, uma das principais organizações ambientalistas espanholas.
A Espanha anunciou na quarta-feira (16) que vai revisar os sistemas de segurança de suas centrais nucleares. Orientada para as energias renováveis, a Espanha também tenta reduzir a sua dependência do petróleo e decidiu prorrogar a vida de várias de suas centrais.
Em 2009, o governo prolongou até 2013 a atividade de Garoña, a central mais antiga do país, em funcionamento desde 1971. Em 10 de março, véspera do terremoto no Japão, o governo autorizou o prolongamento da exploração por dez anos da central de Cofrentes.
Da Agência France Presse. Foto: Pedro Armestre/AFP Pfoto.
Quase 200 pessoas assinaram a petição online contra novas usinas nucleares no Brasil. Intitulada “Não queremos usinas nucleares em Pernambuco, no Nordeste e em qualquer lugar do Brasil", a campanha virtual também está no Facebook. Um dos locais cotados pela Eletronuclear, a estatal que cuida das usinas no País, é Itacuruba, no Sertão pernambucano. O local abriga um telescópio do Observatório Nacional que monitora impactos de asteroides contra a Terra e a coordenadora do projeto, Daniela Lazzaro, disse que a poluição luminosa e as nuvens geradas pelo vapor d’água inviabilizam o funcionamento do equipamento, que custou R$ 2 milhões.
Invasora
Macaco-galego
Manguezal