Blog Ciência e Meio Ambiente

prego-galego

Um macaco de dois nomes

POSTADO ÀS 21:00 EM 18 DE Abril DE 2010

A descrição científica do macaco-prego-galego, em 2006, é um capítulo à parte, com direito a disputas e intrigas entre pesquisadores, na história da espécie, ameaçadíssima de extinção e restrita à porção de mata atlântica existente acima do Rio São Francisco.

Uma equipe da Universidade Federal da Paraíba e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) se preparava, em abril, para batizar o animal quando foi surpreendida por um artigo na respeitada revista Zootaxa (veja abaixo). O texto, encabeçado pelo especialista em mamíferos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Rossano Mendes Pontes, dava o nome de Cebus queirozi ao bicho.

Cebus porque esse é o gênero (primeiro termo de um nome científico) dos macacos-pregos e queirozi numa homenagem aos proprietários da Usina Ipojuca, localizada ao Sul do Grande Recife, onde Pontes e seus colaboradores encontraram o grupo de macacos-pregos-galegos usados na descrição científica. Usados, é bom que se saiba, apenas fotograficamente. Isso porque Rossano anestesiou os animais, fotografou, e os devolveu à mata.

A equipe do CPB, encabeçada pelo biólogo Marcelo Marcelino Oliveira, e pelo prestigiado taxonomista Alfredo Langguth, da UFPB, não desistiu e em julho saiu com um artigo na revista Boletim do Museu Nacional do Rio de Janeiro (veja abaixo), menos reconhecida que a Zootaxa, dizendo que o macaco-prego-galego não era uma nova espécie e sim uma redescoberta. Mataram, como manda a taxonomia convencional, alguns animais para obter as peles, termo usado para denominar exemplares taxidermizados e depositados em coleções científicas.

A redescoberta de um macaco registrado pelo naturalista alemão George Marcgrave, durante a ocupação holandesa no Nordeste, no século 17, e descrita por Johann Schreber em 1774, como Simia flavia. O fato é que a nomenclatura científica em voga desde o século 18 é a estabelecida pelo naturalista sueco Lineu (Carolus Lineu, 1707-1778) e não a de Schreber. Mesmo assim, o CPB e a UFPB insistem em redescoberta. Adaptaram o nome dado por Schreber às regras taxonômicas atuais e decidiram batizá-lo de Cebus flavius.

É de se esperar que, à época, os dois grupos tenham trocado farpas, na busca pelo reconhecimento de autor da espécie. Afinal, não é todo dia que se descobre um primata. Aves e símios são, na verdade, grupos taxonômicos cada vez mais conhecidos e, portanto, menos pródigos em descobertas, ao contrário de invertebrados.

Ninguém bateu, até hoje, o martelo em relação ao nome científico do macaco-galego. Na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), ele já figura como vulnerável à extinção. Na ficha do bicho, Cebus queirozi é apontado como um sinônimo júnior de Cebus flavius ou “como sugerem Oliveira e Langguth, uma espécie inválida.”

O grupo do CPB e UFPB é ligado a nomes nacionais, como Mario de Vivo (Museu Nacional) e internacionais da primatologia/taxonomia,  a exemplo de Anthony Rylands e Russell  Mittermeier, vinculados à Conservation Internacional e à própria IUCN. Rossano é bem relacionado em Cambridge. Ou seja, dificilmente alguém vai bater o martelo forte o suficiente para, enfim, o prego-galego ser conhecido por um só nome no meio científico.

Leia  aqui sobre programa de reprodução do macaco-prego-galego.

Leia aqui sobre as estratégias de conservação da espécie.

Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem, 08/04/10, de exemplar da espécie existente no zoológico do Recife..

 Zootaxa

Postado por Verônica Falcão | Biodiversidade | permalink | imprimir | enviar

4 Comentários | comente | cadastre-se | recupere sua senha

Por - bruna | Abril 08, 2012

muitho bom mermo gosti

Por - Maria | Março 09, 2012

vocês teque falar tudo sobre os animais e botar mais nomes de macacos por que tive que fazer meu tema e não achei nada de nome de macaco obrigada mais amei esse valeu adorei boa noite.

Por - Flávio Queiroz | Setembro 30, 2010

sugiro o nome Cebus flavius queirozi, uma bela homenagem. :)

Por - Maria Adélia Borstelmann de Oliveira | Abril 19, 2010

Ao meu ver, há no texto acima, um erro de interpretação. A questão não é julgar se quem "voga" é Lineu ou Schreber, porque ambos estão do mesmo lado. Schreber foi aluno de Lineu e descreveu vários outros animais, principalmente mamíferos, que são espécies válidas para a ciência nos dias de hoje. O Código Internacional de Nomenclatura Zoológica estabelece que as espécies nomeadas a partir de 1758 e descritas a partir de pinturas e ilustrações até 1931 são válidas. Outra regra válida é a da prioridade, ou seja, o primeiro a descrever uma espécie deve permanecer todo o sempre como "autor" do feito, enquanto que o nome científico que ele nominou pode e deve se "ajustar" a dinâmica das categorizações (classificações taxonômicas), de acordo com o avanço das descobertas. Um ramo particular da biologia, a genética, tem revolucionado e modificado nomes de muitos animais ultimamente. Portanto, não se trata da "insistência" de um dado grupo, por mais prestígio que ele possa ter. Não é assim que os fatos funcionam na ciência exercida com seriedade.
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Verônica Falcão

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